Aquecimento econômico aumenta taxa de rotatividade dos trabalhadores

16/08/2010

RIO - Um estudo inédito do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que 62,82% dos trabalhadores sem carteira assinada mudaram de emprego num período de 12 meses. Os trabalhadores por conta própria - cuja atividade é, na maior parte das vezes, precária - vêm em seguida, com rotatividade de 31,85%. Apesar do vínculo e dos benefícios, os funcionários com carteira assinada demonstram um pouco mais de estabilidade no emprego, mas, ainda assim, apresentam taxa de rotatividade considerada acima do aceitável: 17,47%. É o que mostra reportagem de Vivian Oswald, publicada neste domingo pelo jornal O GLOBO.

A taxa de rotatividade significa o percentual de trabalhadores que muda de ocupação. Por exemplo, de um emprego com carteira para outra vaga formal, para um emprego público, para uma posição autônoma e até mesmo para a aposentadoria.

- O Brasil tem uma das maiores taxas de rotatividade do mundo. A relação entre a empresa e o trabalhador pode ser comparada a um casamento. Ambos são mais fugazes hoje. Mas se é de papel passado (com carteira) tem mais estabilidade - disse o economista Marcelo Neri, responsável pelo estudo, que compara a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE de janeiro a abril deste ano com o mesmo período de 2009 e acompanha o mesmo grupo de trabalhadores por 12 meses.

Entre os especialistas em mercado de trabalho a avaliação do problema é unanimidade: a alta rotatividade é preocupante.

Mas não há um diagnóstico certeiro. O professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Dario Krein atribui a movimentação exagerada do mercado em geral às facilidades do empregador de demitir e admitir funcionários sempre que julgue necessário para cortar custos ou investir em novas tecnologias.

O professor José Marcio Camargo, da PUC-Rio, aposta no que chama de enormes incentivos para que os trabalhadores sejam demitidos quando o mercado está aquecido. Isso é mais frequente entre os menos qualificados. Segundo Camargo, quem está no mesmo emprego há pelo menos um ano levanta até dois salários entre FGTS, seguro-desemprego e aviso prévio.

- O empresário sabe e não se sente incentivado a investir em treinamento porque perderá o funcionário mais cedo ou mais tarde - diz.

Para Neri, porém, os motivos da rotatividade não são de todo ruins, já que a mudança pode favorecer o trabalhador.

Você acha que mudar de emprego é bom para sua carreira?

O aumento da rotatividade é um fenômeno que vem sendo identificado com o aquecimento da economia. Não resta dúvida de que há mais vagas de trabalho. Mas isso não quer dizer que os postos sejam sempre melhores. Dos 17,47% dos trabalhadores com carteira que migraram em 12 meses, 3,77 pontos percentuais passaram para a informalidade, 3,48, para a categoria desocupados - que inclui desempregados e aqueles que desistem de buscar emprego - e 4,78, para inativos.