O liberalismo ainda é aquele!

06/02/2009

Jardel Leal (*)
Adhemar S. Mineiro (**)


A crise econômica de largas proporções que vamos vivendo serviu para que, na maioria dos países do mundo, se configurasse um aparente consenso, ou ao menos uma larga maioria entre os analistas econômicos e formadores de opinião em geral: de uma hora para outra, quase todos passaram a apoiar as idéias keynesianas, descartando os dogmas liberais amplamente defendidos por cerca de vinte anos.
No caso do Brasil, aconteceu efeito similar, porém a realidade que temos visto nas últimas semanas mostra que a maioria dos analistas, e em especial o mundo empresarial, adotou apenas uma espécie de "verniz" keynesiano, continuando a operar com uma essência liberal, baseada nos mesmos princípios e pensamento que nos levaram a essa crise internacional de proporções ainda sendo reveladas.
Alguns exemplos. O primeiro deles diz respeito à crença pré-keynesiana (para não ficar repetindo a palavra "liberal") de que o comportamento baseado na lógica empresarial e no mercado levariam ao melhor dos mundos. A crítica keynesiana mostra exatamente que o somatório das decisões baseadas nos sinais do mercado, em especial nos momentos de crise, apenas reforça a instabilidade e as avaliações pessimistas, gerando mais crise. Isso é, existe uma diferença gigantesca entre o que o comportamento meramente baseado nos sinais de mercado induz a fazer nos momentos de crise (isto é, mais e mais redução da produção, dos empregos e dos salários) e o que é importante para reverter a situação (mais renda, mais gastos). Ao insistirem em reduzir empregos e salários, diretamente ou através da flexibilização, os empresários conseguirão... mais crise no segundo momento, porque trabalhadores com menos renda consomem menos, portanto, menos gasto e menos renda.
Assim, propostas de seguir o modelo que agora naufraga, promovendo mais liberalização e flexibilização do mercado de trabalho não apenas reforça princípios de um modelo que se mostra esgotado, como é capaz de acirrar ainda mais a crise no curto-prazo. O mesmo vale para os apoios que querem obter do Estado. Os empresários estão pedindo mais crédito público e mais financiamento (sem precisarem assumir compromissos), mais gastos em programa de investimentos. Ao mesmo tempo, estão pedindo redução de impostos. Natural e perfeitamente plausível para combater a crise, senão estivessem defendendo a manutenção do superávit primário e cortes de gastos públicos. Que gastos querem cortar? Programas sociais? Gastos com o funcionamento da máquina pública no momento em que precisamos de mais fiscalização e mais regulação?
Insistem ainda na manutenção e ampliação da liberalização comercial, que junto com a liberalização financeira, é questionada nesse momento. Se insurgem a menor menção de algum mecanismo de controle sobre o comércio exterior (mesmo que represente apenas mostrar ao restante do mundo que temos como nos defender de surtos de importação), insistindo em se atrelar a um mercado internacional onde cada vez mais todos se defendem, buscando manter a essência do modelo que entrou em crise. Querem manter a prioridade de expandir suas atividades nos mercados externos, onde a crise é mais pesada, e pouco querem discutir sobre a reconversão de parte da produção para o mercado interno, ambiente em que seria mais fácil administrar, através de programas e medidas de estímulo, a reação da produção.
Finalmente, usam parte das facilidades que se lhes foi colocada a disposição para uma concentração ainda maior do mercado, potencialmente em detrimento de trabalhadores e consumidores, como talvez possamos observar nos processos de concentração entre Itaú e Unibanco, na área financeira, ou entre Votorantim e Aracruz, na área de celulose, aumentando seu poder empresarial e de mercado, dificultando o controle e a regulação.
Apesar da crise, os nossos liberais ainda são os mesmos. Quanta crise mais vão precisar para aprender?

(*) Economista, Técnico do DIEESE, e Supervisor em Exercício do ER-RJ.
(**) Economista, Técnico do DIEESE.