Honduras: golpe contra os Estados Unidos?

02/09/2009

O experiente jornalista Clóvis Rossi anunciou que o golpe em Honduras somente foi possível porque a mudança de Bush para Obama criou um “vácuo político” na América Latina. Immanuel Wallerstein escreveu que o golpe encabeçado por Micheletti representava uma ofensiva da direita hondurenha contra Obama que possui outras prioridades na política externa da principal potencia contemporânea. O experiente historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira declarou que o golpe é inexplicável sem a atuação da ultra-direita estadunidense e os conflitos internos no bloco no poder em Washington que ainda não conferem pleno controle por parte de Obama de órgãos vitais do Estado metropolitano. Enfim, em qualquer das versões anteriores o conceito de imperialismo está proscrito ou simplesmente subalternizado em favor de explicações que valorizam aspectos secundários das relações de poder.
Contudo, o golpe tinha endereço certo: diante da nova correlação de forças existente na América Latina e da emergência do nacionalismo revolucionário, as classes dominantes locais e especialmente as embaixadas estadunidenses não podem mesmo vacilar e, em consequência, atuam de maneira determinada na prevenção, restrição ou simplesmente derrocada de governos que possam fomentar ainda mais o pêndulo latino-americano em favor das maiorias.
Neste contexto, a “ambiguidade” da política exterior estadunidense não reflete apenas a luta pelo poder entre democratas e republicanos nos Estados Unidos, pois sabemos que, a despeito de divergências reais existente entre os dois bandos, a verdade é que o interesse nacional estadunidense sempre moldou a aliança estratégica entre os partidos que sustentam a ordem dominante no norte. A secretaria de estado Hillary Clinton foi clara a respeito, quando, no dia posterior ao exílio de Zelaya, anunciou que a prioridade dos Estados Unidos era o retorno à “ordem democrática”. Não se tratava, portanto, de restituir Zelaya ao posto presidencial, mas precisamente de, no curto espaço de tempo, realizar novas eleições. Esta sutil formulação combina com maestria a exigência pelo “retorno da democracia” com a consolidação dos interesses golpistas. Enfi m, uma vez que Zelaya permaneça fora de Honduras e sua capacidade de infl uenciar na eleição do próximo governo seja efetivamente reduzida ou nula, a democracia poderia, finalmente, “avançar”. Algo muito semelhante à diplomacia que o expresidente Clinton realizou no Haiti de Jean Bertrand Aristide. Este, como sabemos, foi apeado do governo e se encontra exilado na África, como premio pela aceitação da índole constitucionalista do Partido Democrata.
Ainda que as classes dominantes em escala planetária condenem o golpe e a chamada “comunidade internacional” não canse de prometer ou anunciar pequenas medidas de retaliação comercial ou diplomática, a verdade é que o cenário decisivo é o interno, ou seja, o conflito nacional e o poder das classes sociais em Honduras. Zelaya será testado tanto quanto os golpistas, pois os avanços sociais, políticos e diplomáticos que se verificaram em seu governo não estavam solidamente amparados no movimento e na organização popular. O protesto popular cresceu, obviamente, mas ainda não foi o sufi ciente para fazer os golpistas retrocederem.
Honduras sempre foi uma peça chave na guerra de baixa intensidade que marcou a América Central nos anos oitenta, antes dos processos de negociação que levaram ao fi m da luta armada em El Salvador e Guatemala. Não somente a base militar estadunidense cobra seu preço, mas o formalismo dos regimes democráticos combinados efi cazmente com terrorismo de estado que se tornaram mais evidentes nos últimos tempos impediram, historicamente, a livre organização popular. O imperialismo nunca foi uma política externa à nação, vale recordar. Os Estados Unidos, principalmente quando sofre uma séria crise hegemônica, não poderiam descuidar da América Latina, pois esta figura como uma reserva estratégica para sua disputa pelo poder global. A despeito do futuro de Zelaya, a verdade é que mesmo com uma vitória parcial ou total do golpismo, a correlação de forças que motivou um presidente latifundiário a avançar na direção da democracia participativa não desaparecerá no curto espaço de tempo.

Nildo Ouriques, professor do departamento de economia e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC (IELA-UFSC) Matéria publicada no Jornal dos Economistas – edição de agosto