O experiente jornalista
Clóvis Rossi anunciou
que o golpe em Honduras
somente foi possível porque
a mudança de Bush para Obama
criou um “vácuo político” na
América Latina. Immanuel Wallerstein
escreveu que o golpe encabeçado
por Micheletti representava
uma ofensiva da direita
hondurenha contra Obama que
possui outras prioridades na política
externa da principal potencia
contemporânea. O experiente
historiador Luiz Alberto
Moniz Bandeira declarou que o
golpe é inexplicável sem a atuação
da ultra-direita estadunidense
e os conflitos internos no
bloco no poder em Washington
que ainda não conferem pleno
controle por parte de Obama de
órgãos vitais do Estado metropolitano.
Enfim, em qualquer
das versões anteriores o conceito
de imperialismo está proscrito
ou simplesmente subalternizado
em favor de explicações
que valorizam aspectos secundários
das relações
de poder.
Contudo, o golpe tinha
endereço certo: diante da
nova correlação de forças existente
na América Latina e da
emergência do nacionalismo
revolucionário, as
classes dominantes locais
e especialmente
as embaixadas estadunidenses
não
podem mesmo vacilar
e, em consequência,
atuam de maneira
determinada na prevenção, restrição
ou simplesmente derrocada
de governos que possam
fomentar ainda mais o pêndulo
latino-americano em favor das
maiorias.
Neste contexto, a “ambiguidade”
da política exterior estadunidense
não reflete apenas
a luta pelo poder entre democratas
e republicanos nos Estados
Unidos, pois sabemos que,
a despeito de divergências reais
existente entre os dois bandos, a
verdade é que o interesse nacional
estadunidense sempre moldou
a aliança estratégica entre
os partidos que sustentam a ordem
dominante no norte. A secretaria
de estado Hillary Clinton
foi clara a respeito, quando,
no dia posterior ao exílio de Zelaya,
anunciou que a prioridade
dos Estados Unidos era o retorno
à “ordem democrática”. Não
se tratava, portanto, de restituir
Zelaya ao posto presidencial,
mas precisamente de, no curto
espaço de tempo, realizar novas
eleições. Esta sutil formulação
combina com maestria a
exigência pelo “retorno da democracia”
com a consolidação
dos interesses golpistas. Enfi m,
uma vez que Zelaya permaneça
fora de Honduras e sua capacidade
de infl uenciar na eleição
do próximo governo seja efetivamente
reduzida ou nula, a
democracia poderia, finalmente,
“avançar”. Algo muito semelhante
à diplomacia que o expresidente
Clinton realizou no
Haiti de Jean Bertrand Aristide.
Este, como sabemos, foi apeado
do governo e se encontra exilado
na África, como premio pela
aceitação da índole constitucionalista
do Partido Democrata.
Ainda que as classes dominantes
em escala planetária condenem
o golpe e a chamada “comunidade
internacional” não
canse de prometer ou anunciar
pequenas medidas de retaliação
comercial ou diplomática, a verdade
é que o cenário decisivo é
o interno, ou seja, o conflito nacional
e o poder das classes sociais
em Honduras. Zelaya será
testado tanto quanto os golpistas, pois os avanços sociais, políticos
e diplomáticos que se verificaram em seu governo não
estavam solidamente amparados
no movimento e na organização
popular. O protesto popular
cresceu, obviamente, mas
ainda não foi o sufi ciente para
fazer os golpistas retrocederem.
Honduras sempre foi uma peça
chave na guerra de baixa intensidade
que marcou a América
Central nos anos oitenta,
antes dos processos de negociação
que levaram ao fi m da luta
armada em El Salvador e Guatemala.
Não somente a base militar
estadunidense cobra seu
preço, mas o formalismo dos regimes
democráticos combinados
efi cazmente com terrorismo
de estado que se tornaram
mais evidentes nos últimos tempos
impediram, historicamente,
a livre organização popular.
O imperialismo nunca foi
uma política externa à nação,
vale recordar. Os Estados Unidos,
principalmente quando sofre
uma séria crise hegemônica,
não poderiam descuidar da
América Latina, pois esta figura
como uma reserva estratégica
para sua disputa pelo poder
global. A despeito do futuro de
Zelaya, a verdade é que mesmo
com uma vitória parcial ou total
do golpismo, a correlação de
forças que motivou um presidente
latifundiário a avançar na
direção da democracia participativa
não desaparecerá no curto
espaço de tempo.
Nildo Ouriques, professor do departamento
de economia e presidente do Instituto
de Estudos Latino-Americanos da
UFSC (IELA-UFSC)
Matéria publicada no Jornal dos Economistas – edição de agosto