“Cabe a nós, economistas, por em pauta o futuro do Brasil”
02/09/2009
Carlos Lessa é doutor em Economia e professor emérito da UFRJ. Nesta entrevista, antecipa as linhas gerais de seu novo livro, no qual refl ete sobre a questão energética no Brasil e outros temas.
P: Você tem se dedicado à análise da potencialidade e das ameaças decorrentes da descoberta das reservas no Pré-Sal brasileiro e, de forma mais ampla, à reflexão sobre as questões energéticas do país. Quais são as suas conclusões?
R: A evolução das forças produtivas pode ser percebida pela disponibilidade de energia
per capita. Do neolítico inferior ao navegador espacial, o tipo, a quantidade e o modo de utilização de energia transformaram-se radicalmente. A quantidade de energia por produtor
é o alicerce do sistema tecnológico e produtivo. Energia não é commodity; é a base de toda
e qualquer produção, inclusive das commodities. A soja é, inicialmente, resultado de energia
solar. Porém, ao ser produzida com fertilizantes em uma terra manipulada com maquinário
movido a motor de explosão e transportada por um caminhão, utiliza diretamente
derivados de petróleo e os equipamentos acionados “contêm”, dentro de si, diversas modalidades de energia. O que exportamos, predominantemente, são, em última instância, produtos de energia solar e outras agregadas de baixo valor; recebemos do exterior, predominantemente, importações, que são também energias, porém transformadas em produtos de alto valor. Alguns países exportam energia em estado bruto - carvão, petróleo, energia elétrica - e importam tudo o mais. No jogo do comércio internacional, alguns países exportam muita energia, e barata (mão de obra emigrante é dada), e importam energias transfiguradas por sucessivas e complexas mutações e transformações, sob a forma de produtos e serviços com alto valor agregado. Os primeiros países têm veias abertas para
permanentes e generosas extrações de energia para acessar a produtos importados de alto
valor agregado. Quando o tipo de energia é não-renovável, haverá, mais cedo ou mais tarde,
a anemia profunda do país exportador.
É óbvia a importância fundamental da energia. A Inglaterra vitoriana sediou e impulsionou
a primeira Revolução Industrial pela abundância de coque metalúrgico próximo a excelente minério de ferro. A metalurgia e a tecnologia da fundição de ferro inglesas possibilitaram a preliminar produção de canhões navais de baixo custo, que permitiram à ilha dominar o tráfego comercial. A Inglaterra, centro do mundo, exportava produtos industriais de alto valor, enquanto importava alimentos e matérias primas baratos. O carvão permitiu a máquina a vapor, que sustentou a tecnologia logística de ponta e preservou a superioridade naval inglesa. EUA, pólo hegemônico sucessor, fizeram do seu abundante petróleo o vetor combustível do motor a explosão interna; ampliaram e sofisticaram a tecnologia
de petróleo e derivados e determinaram a segunda Revolução Industrial, que ainda hoje
é dominante no planeta.
Na organização do comércio internacional, a posição ganhadora está com países que
exportam produtos que adicionam valor à sucessão de interações e transformações energéticas; trocam a alto preço seus produtos pelas formas energéticas primárias renováveis e não renováveis. Produtos com forte componente de energia solar são baratos e renováveis; trocar alimentos por produtos industrializados faz do Uruguai e da Argentina – apesar do solo,
da água e do calor do sol excepcionais - fracassos históricos relativos. Uma Suíça é exitosa a
partir de uma tradição de mecânica fina iniciada com a relojoaria; exporta, inclusive, o melhor
chocolate do planeta sem sequer plantar cacau, a não ser algum exemplar numa estufa
climatizada no jardim botânico. Os países e as regiões típicas de cacau são atrasados e pobres.
P: Seria paranóia afi rmar que as potências internacionais estão de olho nas nossas reservas no Pré-Sal?
R: A energia concentrada dos combustíveis fósseis não renováveis – carvão e petróleo –
é objeto de desejo estratégico de importações dos países que dominam a produção com alto
valor agregado; a forma politicamente mais tranquila é o domínio imperial desses reservatórios
de combustíveis e a atrofia da soberania que poderiam, potencialmente, empurrar os preços relativos destes combustíveis para as alturas. Uma forma mais sutil é obrigar os países possuidores desses tesouros energéticos a entregá-los a companhias dos países dominantes.
De qualquer forma, permanecem com sua base produtiva atrofiada e a exportação de petróleo realimenta política politicamente uma soberania mutilada. É lugar comum a centralidade
geopolítica do jogo comercial internacional e, em especial, da prospecção, exploração e domínio da economia do petróleo. O antigo Império Otomano dominava o Oriente Médio e grande parte da África do Norte; após sua derrota na I Guerra Mundial, a astúcia geopolítica britânica “balcanizou” o Império. Sobrou a Turquia, que não tem petróleo. A expansão dos EUA em antigos domínios do Vice-Reinado do México transferiu para si os mais ricos territórios de petróleo. A segunda Revolução Industrial produziu
uma logística específica e o padrão industrial
da linha de montagem.
A agricultura de Middle
West e a industrialização
sustentada pelo petróleo
consolidaram, de forma
inequívoca, a economia
norte-americana.
P: Com o governo Obama pode
haver mudanças na política
das administrações norte-americanas
anteriores de busca incessante
e inescrupulosa de fontes
de suprimento de petróleo?
R: O calcanhar de Aquiles americano
surge da adicção ao petróleo
hiperabundante no passado.
Suas enormes reservas
nacionais lhes permitiram desenvolver
uma tecnologia ávida
por petróleo; seu templo foi
Detroit e suas catedrais, a General
Motors, a Ford e a Chrysler,
que competiram pelos carros
bebedores de petróleo,
totens desta civilização adicta
ao óleo. Hoje, os EUA consomem
dez bilhões de barris por
ano, pouco menos de 1/3 do
consumo mundial, e têm reservas
de 29 bilhões de barris
do “ouro negro”. Hillary Clinton,
ao ser nomeada Secretária
de Estado do governo Obama,
enunciou com clareza três
diretivas: energia é a prioridade
número um para os EUA; os
EUA irão propor ações com os
países do Novo Continente para
estabelecer a independência
energética da região; como
sempre, os EUA têm a oferecer
tecnologia e “other activities”
(sem defi ni-las). É fácil interpretar
esta última diretiva: Tudo
continuará como dantes no
Quartel de Abrantes, ou seja,
as grandes empresas industriais,
de serviços e financeiras
estadunidenses acelerarão
a desnacionalização das economias
sul-americanas. O padrão
de vida dos estadunidenses
será mantido e o dos povos
latinos permanecerá atrasado e
com suas mazelas sociais preservadas.
O presidente Obama
aprovou um orçamento direto
de US$ 755 bilhões para as pastas
militares dos EUA em 2009.
O Instituto para a Paz, da Suécia,
calcula em US$1,4 trilhão
o gasto militar americano em
2007. O contingente militar no
Afeganistão cresceu, no governo
Obama, de 38 mil para 68
mil combatentes. Recentemente,
foi reativada a IV Frota, da
Marinha de Guerra norte-americana,
desativada há 58 anos.
Esta Frota do Atlântico Sul lastreia
a afi rmativa da Secretária
Hillary sobre “other activities.
P: Como utilizar sabiamente as
reservas do Pré-Sal?
R: Exportar petróleo bruto é
trocar a riqueza pelo falso brilho
do consumo de ostentação.
Abu Dhabi é um exemplo. Muito
poucos são os países que,
exportando energia não renovável,
lograram atingir a prosperidade
e a equidade social; a
Noruega é a exceção. País com
quatro milhões de habitantes,
exportou petróleo do Mar
do Norte e tem o mais elevado
IDH. Contraste a Noruega
com o Iraque, Irã, Kuwait, Arábia
Saudita e outros.
A Indonésia, país membro
da OPEP, exportou petróleo na
faixa de US$ 2 a US$2,5 o barril.
Esgotados os seus campos, hoje
é importadora de petróleo na
faixa de dezenas de dólares. O
México, após a crise da dívida,
em 1982, teve de entregar suas
reservas à exploração predatória
de companhias concessionárias;
tinha reservas de 48 bilhões
de barris, hoje reduzidas a
14 bilhões. Em futuro próximo,
provavelmente, será importador
de petróleo. A Holanda exportou
gás de petróleo a preços
elevados e sua prosperidade
deu origem à dutch disease: um
aumento de receita de exportação
de recurso natural desindustrializou
a nação devido à
valorização cambial que tornou
o setor manufatureiro nacional
menos competitivo em relação
aos produtos importados.
É peculiar e bem-sucedida a
trajetória brasileira com o petróleo.
Na década de 20, os brasileiros
nacionalistas sonhavam
com a siderurgia de alto forno
e deploravam a ausência de carvão
coqueifi cável. Com o Código
Nacional de Mineração de
Águas e Energias Renováveis,
no início da década de 30, a preocupação
nacional colocou em
primeiro lugar a questão do petróleo.
O Conselho Nacional de
Petróleo – CNP – não localizou
jazidas expressivas em solo fi rme.
Em 1953, Walter Link, famoso
geólogo norte-americano
foi contratado para avaliar as
potencialidades das bacias sedimentares
brasileiras. Concluiu
pela pequena potencialidade
no escudo territorial e afi rmou
que as reservas brasileiras provavelmente
estariam sob o mar.
À época, pareceu uma profecia
maléfi ca e mal intencionada; estimulou
mais ainda a campanha
“O petróleo é nosso”, que permitiu
a fundação e presidiu o gerenciamento
da Petrobras. Link
estava correto. E, a partir dos
primeiros furos na costa sergipana
em águas rasas, em 1974,
a Petrobras desvelou a Bacia de
Campos, sob águas profundas.
Não havia tecnologia disponível
e foi realizado um imenso esforço,
que nos colocou na vanguarda
da prospecção e exploração
de petróleo em águas profundas.
Houve, posteriormente, a identifi
cação positiva de petróleo de
alta qualidade em gigantescos
reservatórios, em um retângulo
que vai da costa do Espírito
Santo a Santa Catarina. O Pré-
Sal tem, aproximadamente, 800
quilômetros de extensão e 200
quilômetros de largura. Nesta
extensa faixa marítima, em lamina
d’água que varia de 1.500
a 3.000 metros de profundidade,
está o subsolo a ser perfurado
entre 3.000 e 4.000 metros. O
principal problema está no sal
fóssil, que é gelatinoso. A Petrobras
já abriu 11 poços, em todos
encontrou petróleo de boa qualidade,
demonstrando domínio
na prospecção e exploração
desse depósito. O primeiro furo
custou US$260 milhões; os
outros, US$60 milhões, em média.
De forma conservadora,
se estima que existam
reservas de 50 bilhões de
barris, mas não seria exagero
supor que tenhamos
mais de 90 bilhões de barris
no Pré-Sal. Isto tornará
o Brasil a quarta reserva
mundial de petróleo.
Este é o Eldorado brasileiro,
pois o “ouro negro” é
infi nitamente melhor que
o ouro metálico.
Em 1973, com a primeira
crise do petróleo, o barril saltou
de US$2 para US$12. Em
1979, com o segundo choque,
pulou para US$40. A tendência
do “ouro negro” é sua contínua
valorização, pois o consumo
mundial tem crescido, no
último quarto de século, acima
do aumento de reservas conhecidas.
Cabe lembrar que, além
dos mais conhecidos combustíveis
derivados, são obteníveis
três mil subprodutos, o que garante
o uso futuro do petróleo,
mesmo havendo o desenvolvimento
de outras formas energéticas.
Assim sendo, o pleno
domínio tecnológico da prospecção
e exploração faz das reservas
provadas e acessíveis de
petróleo uma aplicação financeira
superior a qualquer outra,
em qualquer moeda. É melhor
reservas de “ouro negro” do
que a típica aplicação de bancos
centrais em títulos do Tesouro
norte-americano. A China vem
adotando, como política, fazer
o furo e não extrair o óleo. É astuta
sua política de petróleo.
A busca do petróleo para
afastar a “maldição Link” teve
o efeito dialético de colocar
o Brasil como líder tecnológico
em matéria de petróleo. Temos
que afastar as maldições do Pré-
Sal. Como vimos, é péssimo ser
um país exportador de petróleo,
tampouco ser adicto ao “beber”
petróleo. Não tem qualquer
substância apressar a exploração
do Pré-Sal lançando mão de
fi nanciamentos externos, principalmente
se a obtenção do fi -
nanciamento for combinada
com futuras exportações. Infelizmente,
o Brasil fez este péssimo
negócio com a China, recentemente;
teria obtido uma
linha de US$10 bilhões, em troca
de fornecimento de petróleo
cru. A economia do petróleo
brasileiro sempre caminhou
sob suas próprias pernas; com
a reserva do mercado interno
e altas margens de ganho, nossa
Petrobrás furou todos os bloqueios
que a ela foram apostos
no passado pelas “sete irmãs” e
pelas potências imperiais.
P: Como você analisa a matriz
energética brasileira?
R: É possível construir, para cada
país, uma matriz energética,
convertendo todas as fontes de
energia em Toneladas Equivalentes
de Petróleo – TEP. O Brasil
tem uma matriz energética
que revela baixa adicção aos não
renováveis. Em 2006, de fontes
de energia não renováveis - petróleo,
gás natural, carvão mineral
e urânio – o Brasil consumiu
45,1% do TEP total e de fontes
renováveis – hidráulica, lenha,
cana-de-açúcar – 54,9%. No
mundo, em 2004, 86,8% do TEP
utilizado eram não renováveis e
apenas 13,2% renováveis. É espetacular
a vantagem brasileira
de utilizar, para geração de energia
elétrica, 75,7% de origem hidráulica,
enquanto que no mundo,
apenas 16,1% desse tipo de
energia provêm de recursos hídricos,
sendo obtida a partir de
carvão, gás, derivados de petróleo
e urânio.
A qualidade da matriz energética
brasileira é admirável em
termos de reprodutibilidade.
Estamos mais próximos do que
qualquer outro país do planeta
da utopia da sustentabilidade:
progredir sem diminuir a perspectiva
da população brasileira
do futuro. A fragilidade energética
brasileira não está na matriz,
mas sim na reduzida disponibilidade
de TEP barra habitante,
inferior à média mundial e quatro
vezes menor que a média da
OCDE. Não consigo entender o
veto ambiental procrastinador
do aproveitamento de fontes
disponíveis de energia hidráulica.
Temos que afastar a tendência
à produção de termoeletricidade.
A boa aposta estratégica
para o Brasil é ampliar o aproveitamento
hidráulico e não
considerar a abundância de petróleo
do Pré-Sal como uma alternativa
cômoda e de rápida instalação. Possuir muito petróleo
pode induzir estados etílicos
que prejudicarão a qualidade da
matriz energética brasileira.
P: O que pode ser feito para
equacionalizar o gargalo na infraestrutura
de transportes no
Brasil?
R: Nada será mais conveniente
ao Brasil do que modificar radicalmente
nossa atual matriz
logística. Ao contrário da excelência
de nossa matriz energética,
temos uma péssima matriz
de transporte, responsável por
elevados níveis de fretes internos.
Transportamos pela modalidade
rodoviária a maioria de
nossas cargas, em caminhões.
Proporcionalmente, somos os
maiores consumidores relativos
de diesel em nível mundial. Simultaneamente,
prevalece no
transporte urbano de passageiros
a utilização de veículos movidos
a petróleo. É um veneno
para o Brasil esta matriz de
transporte, que impõe ao consumo
interno fretes elevados
que reduzem o poder de compra
da população. O frete rodoviário
é quatro vezes o ferroviário
em deslocamentos de
longa distância. O transporte
aquaviário é ainda bem inferior
em custo ao ferroviário.
O paradigma
do equívoco
logístico nacional
é a ligação
rodoviária
de Belém do Pará, pela
linha da costa, até o Rio Grande
do Sul. O Brasil dispõe de 17
mil quilômetros de costa marítima,
aonde se situam sete regiões
metropolitanas e três grandes
redes fl uviais. Temos um
intenso tráfego rodoviário consumindo
petróleo em vez de
utilizarmos a navegação de cabotagem.
A rodovia deveria ser
alimentadora de rede ferroviária,
que no Brasil pode ser pensada
com eletrificação. O outro
equívoco logístico e cruel: A irrisória
contribuição do transporte
sobre trilhos urbano e o
congestionamento de veículos
nas cidades condenam o brasileiro
a muitas horas de deslocamento
residência-trabalhoresidência.
O investimento em
trens urbanos e metrôs pode reduzir
o tempo de deslocamento
residência-trabalho-residência
e possibilitar uma política imobiliária
inteligente. É incalculável,
mesmo utilizando o Índice
de Felicidade Bruta – IFB –, de
Buthan, a melhoria de qualidade
de vida com o aumento do
tempo de existir para os moradores
urbanos massacrados pelos
congestionamentos.
Nos EUA, transportes consomem
8,9% do PIB, enquanto
no Brasil consomem 13%. Suponhamos
que uma concentração
de investimentos na matriz logística
nos coloque numa situação
equivalente àquele
país, que não tem o melhor
modelo logístico. O significado macroeconômico de
uma reforma profunda da
matriz de transporte e logística
se desdobra na geração de emprego
e renda a partir das obras
de infra-estrutura e no desenvolvimento
das indústrias fornecedoras
de navios, locomotivas,
trilhos etc. Porém, o impacto
macroeconômico da redução de
fretes é de maior importância,
pois a queda nos fretes corresponde
uma elevação significativa
do poder de compra dos salários.
Isto permitiria uma notável
e sistêmica ampliação do mercado
interno e uma onda de investimentos
produtivos voltados
para o interior da economia brasileira.
Esta é uma mudança dinâmica
para o desenvolvimento
brasileiro, das agruras da globalização
mercantil que nos reserva
a posição perdedora e nos expõe
às oscilações da globalização
financeira.
P: Como será o Brasil pós-crise?
O que precisamos fazer?
R: Um balanço das potencialidades
brasileiras para se situar
no mundo pós-crise da globalização
financeira pode ser resumido
no seguinte. A economia
do petróleo abre uma ampla
frente de expansão para industrialização
e investimento produtivo;
a matriz energética deve
ser ampliada com investimentos
hidráulicos e afastada a tentação
à produção termoelétrica;
a revolução na matriz logística
abriria caminho para uma elevação
substancial do poder de
compra dos salários e ampliaria
o mercado interno, estimulando
investimentos produtivos; o Estado
deveria ampliar, substancialmente,
seus gastos em políticas
sociais – educação, saúde,
segurança e habitação.
Obviamente, devemos aumentar
a participação dos manufaturados
nas exportações
brasileiras. Infelizmente, a tendência
tem sido a queda: eram
61% das exportações em 2000
e, caíram para 53%, em 2007. O
Brasil deveria reduzir a exportação
de alguns produtos básicos.
O exemplo por excelência
é o couro cru. Em outros
casos, é interessante esquadrinhar
a pauta de manufaturas.
A energia da usina de Tucuruí
pode ter utilizações muito mais
estratégias do que ser exportada
em lingotes de alumínio pela
Alcoa. O sinistro seria exportar
petróleo bruto, importar o brilho
fácil, gerar uma avalanche
de dólares que esmague as demais
atividades produtivas do
Brasil e trocar o “ouro negro”,
em persistente valorização, pelo
duvidoso papel do Tesouro
norte-americano. Não é difícil
imaginar que os EUA gostariam
de vir a ser os importadores de
petróleo cru brasileiro, garantir
concessões para suas empresas
petroleiras e vender para o Brasil
tudo o que não produzimos
ou deixaremos de produzir.
Em termos geopolíticos, o
Brasil tem que ampliar a proteção
de nossas duas Amazônias:
a verde e a azul. Para tal,
tem sido extremamente correta
a política do Itamaraty. A integração
com os países hispanoamericanos
tem que evoluir em
direção a um Estados Unidos
da América do Sul. Porém, até
que esta utopia ganhe consistência,
precisamos estar alertas
quanto às astúcias do G-2,
formado pelos EUA e China. A
soberania no Pré-Sal não pode
desconhecer a truculência e as
periculosidades da geopolítica
do “ouro negro”. O Brasil tem
de robustecer suas Forças
Armadas, que são hoje,
mais do que nunca, indispensáveis
para preservar,
para os brasileiros, a
energia hidráulica da Bacia
do Amazonas e o petróleo
leve do Pré-Sal.
Matéria publicada no Jornal dos Economistas – edição de agosto